Reforma – liberdade e escravidão!

Em 2017 comemoramos 500 anos de Reforma Protestante. Um dos principais nomes da reforma é Martin Lutero. É difícil sintetizar tudo o que a reforma significou e sua teologia. Queremos refletir um pouco a respeito dela a partir do tratado sobre a Liberdade Cristã, escrito por Lutero e publicado em 1520. Seguem algumas reflexões e recortes deste texto:

“O cristão é um senhor libérrimo sobre tudo, a ninguém sujeito. O cristão é um servo oficiosíssimo de tudo, a todos sujeito”.

Estas duas afirmações, embora pareçam contraditórias, concordam entre si. Como afirma Lutero, é Paulo quem afirma ambas – leia 1Co 9.19 e Rm 13.8.

Um dos temas tratados neste texto é aquilo que faz a pessoa interior tornar-se livre e justa diante de Deus. Muitos pensavam, naquela época, que as obras realizadas pelo ser humano eram a resposta a essa pergunta. Um dos pontos principais da reforma é a afirmação de que não são obras humanas exteriores que tornam alguém justo, mas somente a fé em Cristo.

“Assim de nada adianta se o corpo se enfeita com vestes sacras, a exemplo dos sacerdotes, ou permanece em recintos sagrados, ou se ocupa com ofícios sagrados, ou ora, jejua, se abstém de certos alimentos e faz toda a obra que pode ser feita por meio do corpo ou no corpo. É preciso algo bem diferente para trazer justiça e liberdade à alma, visto que aquilo que referimos pode ser feito por qualquer ímpio, e por meio destes esforços não se produz outra coisa do que hipócritas. […] Uma só coisa é precioso para a vida, a justiça e a liberdade cristã, e somente esta: é o sacrossanto Verbo de Deus, o Evangelho de Cristo, como ele diz em Jo 11.25: ‘Eu sou a ressurreição e a vida, quem crê em mim não morrerá eternamente’. Do mesmo modo em Jo 8.36: ‘Se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres’. E em Mt 4.4: ‘Não só de pão vive a pessoa, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus’”.

O que Lutero está dizendo é que essa justiça e liberdade nos é concedida apenas diante da Palavra, isto é, apenas em Cristo. Não é possível receber a justiça por meio de obras humanas, mas somente pela fé, pois tudo o que se encontra no ser humano é culpável: “Por isso, quando começas a crer, aprendes simultaneamente que todas as coisas que se encontram em ti mesmo são de todo culpáveis, pecaminosas, condenáveis […]”. Leia Rm 3.23 e Rm 3.10ss.

Diálogo:

– Ainda hoje é possível pensar nas obras como meio de alcançar a salvação? Você já se viu agindo dessa maneira?
– Como você imagina o papel da lei e das obras, visto que elas não servem para alcançar a salvação?

A Escritura nos dá muitas orientações de como viver, mas ao mesmo tempo não somos salvos por cumprir tais orientações. Todas as leis e preceitos que temos nas escrituras, para Lutero, tem uma função e também sua limitação: eles nos ensinam muitas coisas boas e mostram o que devemos fazer, mas não nos dão força para fazê-lo e, ao mesmo tempo, revelam a nós mesmos, para que reconheçamos nossa impotência para o bem e desesperemos de nossas próprias forças. Ou seja: na medida em que a lei exige algo, ela também revela nossa incapacidade em cumprir tal exigência. No que se refere a alcançar a salvação, somos libertos da Lei e não necessitamos dela: “ Esta é a liberdade cristã, nossa fé, que não faz que sejamos ociosos ou vivamos mal, mas que ninguém necessite da lei ou de obras para a justiça e a salvação”.

A fé é o crer e confiar em Deus e em suas promessas; quando fazemos isso, atribuímos a Deus justiça e veracidade. Lutero afirma que este é o culto supremo a Deus. Esta é a verdadeira obediência e boa obra. A verdadeira impiedade é não crer neste Deus, fazê-lo de mentiroso e confiar em nós mesmos e em nossa própria justiça. Fazendo isso, tornamo-nos nossos próprios ídolos. Toda a obra, por melhor que seja, mas realizada nesta mentalidade (uma tentativa de buscar a salvação por nossas próprias forças), não tem valor nenhum.

A salvação pela fé é possível apenas por causa de Cristo. Lutero fala de Cristo como o noivo e daquele que nele crê como sua noiva. Neste casamento tudo se torna comum entre ambos: o pecado da noiva se torna o pecado do noivo e a justiça do noivo se torna a justiça da noiva.

“Pois vês que o primeiro mandamento, que diz: ‘Adorarás somente ao único Deus’, é cumprido exclusivamente pela fé. Pois se tu mesmo outra coisa não fosses do que boas obras dos pés à cabeça, assim mesmo não serias justo, nem adorarias a Deus, nem cumpririas o primeiro mandamento, visto que Deus não pode ser adorado a não ser que se lhe tribute a glória da verdade e de toda a bondade, como de fato lhe deve ser tributada; isso, porém, não o fazem as obras, mas somente a fé do coração. […] Por isso somente a fé é a justiça da pessoa cristã e o cumprimento de todos os mandamentos”.

Diálogo:

– Lutero diz que podemos ser boas obras dos pés as cabeça e mesmo assim não agradar a Deus. Que implicações esta ideia tem sobre como nos relacionamos com nosso próximo?
– Diante da impossibilidade de realizar boas obras para a salvação, o que, para você, é a fé? Seria ela uma boa obra?

Lutero responde a pergunta a respeito do que fazer com as boas obras que nos são ordenadas nas Escrituras. Diante da salvação pela fé, uma possível postura é ignorarmos todas as orientações de Deus para a vida. Tais orientações tem seu papel, embora elas não nos proporcionem a salvação, não devemos ser ociosos e viver de qualquer maneira. Embora a pessoa seja suficientemente justificada pela fé, Lutero diz que “ainda assim a pessoa permanece nesta vida mortal sobre a terra, na qual é necessário que ela governe seu próprio corpo e lide com pessoas.  Aqui agora começam as obras; aqui não deve ficar ocioso; aqui por certo há que se cuidar para que o corpo seja exercitado com jejuns, vigília, trabalhos e outras disciplinas modernas, e seja subordinado ao Espírito […]”.

O espaço que as obras encontram não diz respeito ao alcançar a salvação, mas como viver tal salvação que nos é dada em Cristo, por meio da fé. “Assim o cristão, consagrado por sua fé, faz boas obras, mas por meio delas não se torna mais consagrado ou cristão, pois isso é assunto exclusivo da fé, sim, se não cresse primeiro e fosse cristão, todas as suas obras não valeriam absolutamente nada, mas seriam pecados verdadeiramente ímpios e condenáveis”.

Um dos aspectos centrais levantado pelo reformador é que as obras do cristão estão orientadas pelo amor e serviço ao próximo. Em sua liberdade o cristã se torna escravo e servo do seu próximo, em amor, sem interesse de conquistar o próximo ou mesmo sem pensar ou esperar gratidão ou qualquer coisa em troca. “Por isso a pessoa deve, em todas as suas obras, estar orientada por esta ideia e viver somente isto; servir a outros e ser-lhes útil em tudo o que faz, nada tendo em vista senão a necessidade e a vantagem do próximo. […] Esta é a verdadeira vida cristã, aqui de fato a fé atua pelo amor, isso é, entregando-se com alegria e amor à obra da servidão libérrima, com a qual serve ao outro gratuitamente e espontaneamente, enquanto ela própria está abundantemente satisfeita com a plenitude e opulência de sua fé”.

Aquilo que recebemos de Deus tem reflexos na maneira como vivemos e em como nos relacionamos com nosso próximo, seja lá quem ele for. “Vê, de acordo com estra regra, os bens que temos de Deus devem fluir de um para o outro e tornar-se comuns, de sorte que cada qual assuma seu próximo e proceda com ele como se estivesse no lugar dele. […] minha fé e justiça têm que colocar-se perante Deus, para cobrir e interceder pelos pecados do próximo que devo tomar sobre mim, e neles labutar e servir como se fossem meus próprios, pois foi isso que Cristo fez por nós. Este é, portanto, o verdadeiro amor e a regra sincera da vida cristã. […] a pessoa cristã não vive em si mesma mas em Cristo e em seu próximo, ou então não é cristã. Vive em Cristo pela fé, no próximo, pelo amor. Pela fé é levada para o alto, acima de si mesma, em Deus; por outro lado, pelo amor desce abaixo de si, até o próximo, assim mesmo permanecendo sempre em Deus e seu amor […]”

Diálogo:

– Lutero diz que devemos tratar os pecados do próximo como nosso pecado. Você acha que nós, no dia a dia, realmente olhamos para o próximo e para o seu pecado dessa maneira?
– Diante de tal reflexão: a liberdade cristã teria algum limite? Até onde posso ir na minha liberdade?

 

Referências:

Tratado de Martinho Lutero sobre a Liberdade Cristã. IN: LUTERO, M. Obras selecionadas: O programa da Reforma, Escritos de 1520. Vol. 2. Porto Alegre: Concórdia; São Leopoldo: Sinodal, 1989.

 

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