Masculinidade e Feminidade – Quais são os nossos papéis?

Vimos na palestra anterior que o valor do ser humano não está no que ele faz, e sim em quem ele é: um ser criado à imagem e semelhança de Deus, por isso um sujeito, investido de autoridade e representando o Criador em sua criação. Diante de Deus o valor do ser humano é um só. Mas é inquestionável perceber que Deus faz homem e mulher, havendo uma polaridade sexual, havendo a diferenciação de um e outro, não em termos de valor, e sim de função, de papel. É inegável que Deus fez dessa forma. Por isso o subtema faz essa pergunta: qual é o papel de cada um? Deus estabelece papéis?

 

Antes de lermos o texto bíblico de hoje, gostaria de retomar algo importante e fundamental em Gn. Lemos em Gn 1.27: Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou. Aqui está a identidade do ser humano. Na sequência temos estabelecido seus papéis: ler v.28.

Dois papéis claros são dados aqui: multiplicar-se e dominar a terra. Mas a quem é dado os papéis? Para que essa pergunta seja respondida plenamente, bem como para que possamos abordar toda nossa temática, precisamos fazer um exercício importante:

Tentar nos livrar de preconceitos. Estes são conceitos pré-formados a partir do ambiente e tempo que vivemos. Vivemos dias que praticamente toda abordagem que reflita sobre ser humano está contaminada por uma ideologia, chamada ideologia de gênero, que tem a ver especialmente com o movimento feminista. Quando olhamos para textos bíblicos com esses óculos, distorcemos totalmente o que ali é dito. Precisamos fazer o exercício de “tirar esses óculos”.

Por outro lado, praticamente em toda a história da humanidade predominou o que chamamos de machismo, ou patriarcalismo. Ele continua existindo hoje, e também muitos lêem a Bíblia com esses óculos. O mesmo exercício de “tirar os óculos” do machismo é fundamental. Nem machismo, nem feminismo existiam aqui em Gn 1 e 2. Mas fato é que aqui é falado em papéis, em funções.

Em Gn 1.28 nos é dito: ler. A quem é dado o papel de multiplicar-se e de dominar? Aos dois! Não há aqui a menor sugestão de que o varão tenha maior responsabilidade pela mordomia da criação, e a fêmea seja mais responsável pela reprodução. Em outras palavras, não temos uma ordem pré-estabelecida de que o homem é o apenas o provedor e a mulher é única responsável de ficar em casa educando e cuidando dos filhos, porque somente a ela foi dado o útero e a possibilidade de amamentar. Acima da sexualidade está a humanidade da pessoa, e sua realização como pessoa depende de sua vocação como imagem de Deus. No entanto isso não nega a sua biologia, sua polaridade sexual homem-mulher. E por serem diferentes não exercerão o mesmo papel, e sim papéis diferentes. Mas se não há em Gn a definição de papéis, quem os define?

Importante lembrar que nós vivemos a partir de Gn 3, onde tudo foi estragado, onde a perfeita harmonia da criação foi perdida, onde surgiu o desequilíbrio. Apesar disso Deus não abandonou o ser humano, não o deixou entregue à sua própria sorte. A partir da vinda de Jesus, da concretização de sua obra, o ser humano passa a ter uma nova identidade. Em Cristo, a imagem distorcida é restabelecida. Isso dá uma nova dignidade às pessoas. Nos dias de Jesus foi algo totalmente novo. Jesus dá dignidade às mulheres, crianças, escravos, a quem não era reconhecido ser valor como ser humano.

O apóstolo Paulo entende isso muito bem, de maneira que temos em Gl 3.28 uma palavra chave: não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. De fato Jesus Cristo passa a ser o critério para olharmos o ser humano, tanto a sua humanidade, quanto sua vocação. E para vermos melhor isso, leremos Ef 5.21-33. O critério para entendermos bem esse texto é Jesus Cristo. Não podemos olhar para ele com os óculos de machismo, feminismo, ou outro qualquer. Nesse texto Paulo retoma Gn 1-3 e sustenta a igualdade e a diferença do homem e da mulher, que os leva a experiência da união. Ele o faz à luz da relação estabelecida entre Cristo e a igreja (5.23). Portanto, precisamos destacar alguns pontos chave:

– O texto está dentro de um contexto menor e maior. Destacando especialmente o menor, o pressuposto é que ambos, marido e mulher, são pessoas plenas do Espírito (v.18), e portanto, têm presente em sua vida tudo o que decorre disso. Importante que a ordem de sujeição, ou subordinação, é dada a ambos (v.21), mas no temor de Cristo, ou seja, sabendo que sua vida está em primeiro lugar diante de Cristo.

– Marido e esposa, bem como seus papéis, acontecem da forma como Cristo se relaciona com a igreja.

– O texto se refere a “casais casados”. Não se refere a homem e mulheres no geral. Não são afirmações separadas uma da outra.

– A ênfase está nas responsabilidades, não nos direitos dos cônjuges. Portanto, não dão elementos que se possam usar como bandeira.

Ao termos esses elementos pressupostos bem claros, não damos margem para qualquer preconceito, sendo possível extrair do texto a riqueza maravilhosa que Paulo destaca, e que tem consequências incríveis para nossa família. Pela primeira vez podemos ver, em Cristo, o que significa o convívio humano de acordo com a boa vontade de Deus na estrutura estabelecida por ele. Antes disso vimos que a boa ordem de Deus para a convivência humana foi pervertida pelo pecado, transformando-se numa constante e insana luta por senhorio e poder. Paulo vai além das reivindicações do movimento feminista, e solta uma bomba na base do machismo.

Vejamos v.22-24. Com essa afirmação Paulo não está falando de condição, mas de posição. Isso significa junção, não classificação. Não determina superioridade ou inferioridade.

Se o casal se une com um propósito, isso requer a existência de uma estrutura que facilite sua consecução, sua finalidade. Aqui Paulo se refere à posição que Deus atribui à esposa no contexto da ordem da criação (1 Co 11.8-9). Isso é uma questão de necessidade. Em todo sistema ou subsistema é necessário uma estrutura. Paulo introduz uma estrutura que não está determinada em termos de diferenças entre homem e mulher (racional e emocional), nem por meio de qualificações.

Simplesmente é ordem do Criador, onde o propósito é haver uma estrutura onde se alcance o desenvolvimento da relação. Submissão da esposa, portanto, é a renúncia voluntária a sua autonomia, em resposta ao amor que seu esposo lhe oferece. Isso não condiciona a mulher a uma posição de ser inferior, mas como um ser cuja natureza se adéqua melhor a essa função no contexto do matrimônio. Assim entramos na parte mais difícil do texto: vv.25-28. O que é mais difícil: submissão ou amar como Cristo amou a igreja? Submissão é entregar-se a alguém. Amar é entregar-se por alguém. E o critério aqui é altíssimo: amor de Cristo. É o Ágape, não o Filos nem Eros. Isso significa que o homem precisa ver na mulher um sujeito de amor, assim como Cristo vê a igreja. Esse amor não aponta para uma obrigação, mas para uma ação, uma decisão da vontade.

Esse “amai” é a valorização do outro, que provoca em mim ações, não só sentimentos. É uma entrega, não de coisas (consumismo), mas de si mesmo. Assim, homem e mulher se complementam, renunciando ambos a si mesmos pelo outro. Impossível pensarmos a igreja sem Cristo, nem Cristo sem a igreja. Mas cada um tempo sua posição. Ambos precisam um do outro, sem, contudo, perder sua singularidade. Seguindo isso como modelo, podemos ter corrigido tanto o abuso como a ausência de autoridade em nosso meio (obs. a literatura sobre a família mostra que um dos grandes problemas do casamento não é o excesso de liderança, e sim a falta dela).

Vemos, assim, que quando falamos em papel de homem e mulher, não precisamos pensar num primeiro momento: isso é coisa de mulher e isso é coisa de homem. Tirando a amamentação, tudo o que uma mulher faz o homem pode fazer, e vice-versa.

O que é importante nesse contexto é que a família se converta na provedora do desenvolvimento da identidade de cada integrante seu. O ser humano só pode desenvolver-se plenamente se está inserido numa família, formada por diferentes, onde cada um assume seu papel. Por isso dizemos que a família é a célula mãe da sociedade. Quem destrói a família, destrói a sociedade, e se auto destrói. Porém nem sempre isso acontece. Entramos assim num campo que percebemos uma grande crise em nossos dias: masculinidade e feminilidade. Como já mencionado, a cultura machista perdurou por boa parte da história da humanidade, e ainda está presente hoje. Ele se expressa especialmente em contextos de violência doméstica, abusos sexuais, etc., e em todo discurso que tente sobrepor o homem à mulher, no sentido de valor, de identidade, de rebaixar quem a mulher é.

Deus criou homem para serem machos, não machistas. O machismo é o masculino em crise. Mas não é apenas o machismo a crise do masculino. Uma das tarefas do homem é ser pai. Penso que uma das maiores crises que vivemos no momento é a crise da ausência paterna. Quando falamos em ausência paterna, isso não significa necessariamente ausência física, e sim a de não assumir sua responsabilidade e seu papel como pai. A ausência paterna gera nos filhos, tanto menino quanto menina, consequências desastrosas, seja na área psicológica, emocional, relacional, bem como na espiritual. É como se houvesse implícito no ser humano desde seu nascimento uma pergunta que apenas a figura do pai pode responder. O detalhe é que ele sempre responde, positivamente ou negativamente. A crise atual está nessa resposta excessivamente negativa, que faz com que a resposta positiva seja buscada pelos filhos em outros lugares. Geralmente os meninos buscam em alguma forma de violência, uso de drogas e armas, que os fazem se sentir poderosos, e na prostituição, que os faz se sentir amados e capazes de conquistar alguém. Os danos são terríveis. Para as meninas os danos não são diferentes, mas elas geralmente buscam a resposta positiva no “colo” de alguém, em alguém que vai lhe dar o valor que ela precisa (indicação de leitura: Coração Selvagem, de John Eldredge).

Em resposta ao machismo surge o feminismo. Um não é o equivalente do outro. O feminismo não é o machismo das mulheres, embora haja elementos comuns. Machismo é uma cicatriz cultural, sem pretensões teóricas, não tem nenhum corpo doutrinal, embora esteja presente em muitos homens. O feminismo é uma ideologia, com pretensões acadêmicas, embora existência real se limita a poucas mulheres. Sua versão mais recente defende o que chamamos de ideologia de gênero, que basicamente tenta dizer que homem e mulher são iguais em tudo, e isso não é determinado pela biologia, e sim uma construção social. Ou seja, você não nasce homem ou mulher, mas vai se moldando conforme a cultura. A ideia seria eliminar tudo da cultura que direcione o ser masculino a se tornar homem, e o ser feminino a se tornar mulher, de maneira que eles possam escolher sem ser influenciados.

O trágico é que essa ideologia se esconde por trás de uma luta justa, a luta contra a violência, direitos iguais a salários, etc., de maneira que colam em você a imagem que se você for contra a ideia de gênero, é a favor da violência. Isso é mentira. A ideologia de gênero é uma farsa que não leva a sério a profundidade e riqueza que é o ser humano (não existe mudança de sexo, cromossomos, existe mutilação).

Em nome de uma ideia totalitária, tentam eliminar a riqueza que é ser homem e mulher. Vejamos como Deus fez tudo tão maravilhoso! A complementaridade é divina. Deus é assim! Pai, Filho e Espírito Santo são um único Deus, que se revela em três pessoas diferente, cada um com suas características e forma de atuação, que não se fundem, porém se distinguem. Cada pessoa da trindade tem sua identidade, e vivem em plena harmonia, pautada no amor e na submissão. O Filho é submisso ao Pai, que ama o Filho. Pai e Filho enviam seu Espírito Santo para ser sua presença entre nós. Assim homem em mulher quando se unem sexualmente no contexto do casamento são uma só carne. Complementam-se com suas diferenças.

Sejamos sinceros e olhemos para nós: como somos diferentes, vemos as coisas diferentes, pensamos diferentes! Em toda a história foi assim! Não percamos essa riqueza! Vamos como igreja testemunhar ao mundo que o plano de Deus é o melhor, assim como sempre foi. Para isso precisamos assumir nossa masculinidade e feminilidade, ajustando-as conforme Cristo e a igreja!

Escrito por: Missionário Alison Diogo Heinz

CONFERÊNCIA BÍBLICA – O DESAFIO DE SER FAMÍLIA – 04/06/2016

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