Família conforme os propósitos de Deus

Nossa Conferência Bíblica tem o desafio de falar sobre o DESAFIO DE SER FAMÍLIA. Ser família é um desafio? Precisamos, em pleno sec. XXI falar nisso? Não há algo mais interessante e atual para se falar numa palestra? Não. Penso que não há nada mais atual e necessário para falarmos em nossos dias do que o desafio de ser família. Atual porque veremos que é a instituição mais antiga que existe, e embora tenha passado por muitas crises em toda a História, e continua passando, permanece como uma instituição indestrutível. Por ser indestrutível, sempre será atual. Necessária porque tem sofrido, como sempre, muitos ataques de quem tenta a destruir. Tem gente tentando destruir? Tem. Sempre teve e continua tendo. Mas não vai conseguir. Quando digo que não vai conseguir, isso não parte da arrogância humana. Como dito, família é uma instituição. Porém quem ataca a família pensa que está atacando uma instituição humana. Não falamos de família enquanto instituição humana. Quem pensa assim se engana. “Família não é propriedade das pessoas, mas é dádiva de Deus” (Euler Westphal).

Esse é nosso pressuposto para falar de família: dádiva de Deus. Se for dádiva de Deus, é perfeita, certo? Certo. Mas a sua família é perfeita? Qual o modelo de sua família? Ou, você tem família? Gostaria aqui que todos nós de alguma forma fôssemos incluídos nessa abordagem, sem num primeiro momento fazermos um juízo de valor, e sim olharmos para nossa realidade pessoal. Constatar primeiramente como ela está, sem olhar para o outro e achar que ele tem o modelo de família certo, ou olhar para si mesmo e se enxergar como “o” modelo. O desafio é pessoalmente constatar a minha realidade, e então olhar para nosso primeiro subtema perguntar: minha família está conforme os propósitos de Deus? Por que isso? Porque vivemos num tempo onde é muito fácil e rápido encontrar os defeitos dos outros. E quando apontamos os defeitos dos outros tiramos o foco dos nossos. Assim, aparentemente tudo parece estar bem, sendo que pode não necessariamente estar. P.ex., podemos facilmente olhar para alguém que está no seu segundo, terceiro, casamento, tendo filhos com um e com outro, e dizer: isso não é família. Também podemos olhar para um casal que apenas “se ajuntaram”, não passando pelo altar, e dizer: isso não é família, não tem a benção de Deus. Ou podemos olhar para o lado e constatar que ali há uma “mãe solteira”, ou um “pai solteiro”, e dizer: coitados, os filhos nunca terão família. Mas também podemos olhar para um casal, casado, homem e mulher, com dois ou três filhos, e pensar: ali sim há uma família feliz. Esses vivem o propósito de Deus. Será? Isso por si só garante uma família conforme os propósitos de Deus? Nesse momento temos muitas perguntas: tudo pode ser encaixado na instituição família? Ou nada pode ser? Qual o modelo ideal de família?

Convido você a, rapidamente procurarmos alguns exemplos bíblicos. Vamos para o início: – Adão, Eva, Caim, Abel. Família perfeita? Primeiro homicídio entre irmãos. Crime moderno, não! – Abraão, Sara, Isaque. Família perfeita? Não podemos esquecer do outro filho, Ismael. – Davi: homem segundo o coração de Deus. Mas vamos falar de seu casamento com qual esposa? E vamos procurar o modelo ideal de filho em quem? No que estuprou sua irmã? Ou no que matou o que estuprou? No que mandou o pai embora de casa e tomou suas esposas? Ou Salomão (outra família), que teve mil mulheres?

– NT: não temos grandes narrativas, mas podemos pensar na comunidade de Corinto. Escândalos sexuais. Enfim, encontramos na Bíblia alguns modelos de família que podemos tomar por exemplo perfeito? Não. Então não temos nada na Bíblia a ser falado com respeito à família? Temos. Podemos procurar na Bíblia o propósito de Deus para família. E quando afirmarmos que família é dádiva de Deus, podemos fazer isso com toda a segurança exatamente porque foi Deus que criou a família. Se é algo que Deus criou, então vamos bem para o início. Vamos ver qual o propósito original de Deus, e, portanto, ainda atual, para a família, ainda que, ao olharmos ao redor, não encontremos esse modelo a ser seguido. Gn 1.26-28; 2.19-25. Para falar de família precisamos falar primeiro do indivíduo.

Em Gn 1.26-27 temos o conceito bíblico fundamental da pessoa humana e de seu valor. Homem e mulher são feitos à imagem e semelhança de Deus. Para entendermos bem essa expressão e seu significado, precisamos nos situar no ambiente onde ela foi descrita. No antigo Oriente Médio, havia a compreensão que o rei era o representante de Deus diante dos seus súditos. Palavra do rei era palavra de Deus ao povo. É só olharmos, p.ex. para o livro de Salmos e Provérbios, e constataremos quantos capítulos e versículos dizem respeito ao rei, reverenciando o rei, desafiando a orar pelo rei. A imagem do rei, por outro lado, entalhada em forma de escultura, o representava na terra conquistada. Na terra conquistada era exposta a imagem do rei, afirmando com isso a quem pertencia esse território. Essas mesmas idéias fazem parte do texto bíblico: o ser humano é a imagem de Deus porque o representa e está investido de sua autoridade. Porém em Gênesis isso é muito mais profundo. Antes de criar o ser humano, Deus criou todas as outras coisas. Terminada a criação do Universo e dos seres viventes, Deus faz uma imagem de si próprio e o coloca no mundo como seu representante. O Criador implanta no ser humano sua própria criatividade, confiando-lhe a mordomia da sua criação. Esse é o seu mandato cultural, e cumprindo isso o ser humano manifesta que ele é imagem de Deus. Aqui está a identidade do ser humano.

Somente sendo quem ele é ele sabe quem ele é e o que fazer. Porém há uma diferença muito grande da criação do ser humano para as demais coisas criadas. Somente na sua imagem e semelhança Deus coloca seu próprio fôlego de vida. Assim, embora o ser humano tenha sido colocado no meio ambiente da criação, ao mesmo tempo há uma distância do mesmo. Por causa do fôlego de vida Deus e o ser humano permanecem atados, de maneira que o ser humano não pode ser compreendido sem Deus. Isso o torna um sujeito, um SER humano. Seu valor não está no que tem, nem no que faz, e sim em quem é.

O ser humano é um sujeito em relação com o Criador. Alguém que é aceito, em quem se pode confiar e está destinado a realizar-se plenamente e desfrutar sua vida, dentro dos limites que Deus estabeleceu para o seu bem. (Para exemplificar, imagem do espelho). Porém junto com a descrição de quem é, há um chamado, ou um mandato, que o distingue do restante da criação: dominar o mundo criado (não dominação militar, à qual nossa mente é facilmente direcionada). Nenhum outro ser criado recebe essa categoria. Isso significa que o ser humano é chamado a senhorear sobre seu redor, e se não o fizer, não cumpre seu papel. Se não cumpre seu papel, deixa de ser sujeito e torna-se objeto, pois se confunde com a natureza, com seu meio ambiente, como um simples elemento a mais. E se sendo objeto, se comportar como dominador, passa a ver o outro não como companheiro, e sim a utilizá-lo como objeto, atentando contra a imagem de Deus, tanto sua como a do outro. Quando o humano busca o humano no humano, o humano se perde no humano.

Quando o humano busca em Deus o humano, ele se encontra consigo mesmo e com o próximo, seu semelhante. Pergunta: o que isso tem a ver com família? Tudo. Porque daqui brota o essencial para haver família que vive conforme o propósito de Deus. Deus criou o ser humano à sua imagem. E aqui está seu valor. Mas o mais fantástico disso tudo é o que temos no v.27: homem e mulher os criou. Gênesis não deixa dúvida acerca da polaridade sexual entre homem e mulher. Um não está abaixo ou acima do outro, não vale mais ou menos que outro, não é mais importante ou menos que o outro. O ser humano não é alguém assexuado nem andrógino (que tem as duas características), e sim ser humano macho e ser humano fêmea, homem e mulher. Essa polaridade não é fruto da Queda, e sim boa criação de Deus.

A dignidade dos dois não está em primeiro lugar em sua biologia, e sim em sua semelhança com Deus. Em outras palavras, vemos em Gn 1 que homem e mulher são ao mesmo tempo iguais e diferentes. E a partir de Gn 2 vemos que isso permite a ambos uma relação sem fusão, intimidade sem perda de identidade, aproximação sem perder o espaço para crescer individualmente. Gn 2 é uma espécie de segundo relato da criação. Uma forma diferente de falar a mesma coisa, apenas colocando a ênfase em outro lugar. Em Gn 1 a ênfase está na criação como um todo (cosmos).

Em Gn 2 temos a ênfase na humanidade. Vendo Deus que não havia alguém que correspondesse ao macho na criação, criou a fêmea. Igual no sentido de valor, diferente no sentido de complementaridade. Vou fazer alguém que lhe seja idônea, que lhe corresponda. Ou seja, um tem o que falta no outro, e vice-versa. Essa diferença não se baseia apenas na constituição física, mas também na forma de ser, de perceber o mundo, de reagir, de relacionar-se. Essa diferença permite ambos se aproximarem um do outro e relacionar-se em um nível onde ambos apreciam o fato de serem distintos, compreendendo assim a razão de ser da sexualidade. A complementaridade dos sexos entre si não é reduzida apenas ao campo biológico. Ela abarca a totalidade da pessoa, tanto do homem como da mulher.

O homem descobre sua identidade masculina frente à mulher, e a mulher descobre sua identidade feminina frente ao homem. Um precisa do outro, e o outro do um. Assim, a consumação do casamento e constituição de família temos em Gn 2.24 (ler). Não temos tempo aqui para pormenores (função da atividade sexual, filhos, pessoas que permanecem solteiras). O que é importante enfatizar: família é criação de Deus. Seu propósito é que um homem e uma mulher se unam e pertençam um ao outro, formando uma imagem plena (p.ex. quebra cabeças). Como fica então se equiparamos a imagem do que Deus criou como família, seu propósito, e nossa situação pessoal? É possível equiparar com um sinal de igualdade (propósito de Deus = minha família)?

Penso que não, por melhor que seja sua situação. Por quê? É inegável que em Gn 3 temos a ruptura do propósito e projeto divino. As violações das fronteiras traçadas pelo Criador resultam na experiência da distorção da imagem de Deus. Vejamos bem, a imagem não desaparece, mas é distorcida. O ser humano tentou deixar de ser imagem de Deus para se tornar Deus. Isso resulta na entrada do que estava previsto, a morte, a alienação. Adão se esconde de Deus, a natureza se torna violenta, a imagem é distorcida. Homem e mulher se distanciam, se acusam, já não se vêem como iguais (a mulher que me destes). (lua de mel=Gn2; rotina=Gn3). Pior: não conseguem mais lidar com suas diferenças. Estas perdem o caráter de complementaridade e se transformam em motivo de conflito. A mulher, antes vista como companheira é agora a causa do problema. O homem deixa de ser o companheiro que a escolheu e recebeu, transformando-se num ser acusador, incapaz de assumir a responsabilidade e manejar sua autonomia. A diferenciação sexual que os aproximava, que permitia o reconhecimento e enriquecimento mútuos, que os fazia um casal, agora os separa e desequilibra.

A mulher fica dividida em duas direções: uma que a atrai para seu marido, e outra que a atrai para sua autonomia. O homem responde desequilibradamente tirando vantagens da situação e explora a mulher, dominando-a. Ele a vê de forma diferente: não é mais companheira (ishah, varoa), termo que destaca sua identidade, mas Eva (progenitora), palavra que destaca sua função. O sujeito passa a ser objeto! Portanto, a Queda afetou as bases do casamento e da família. O que fazer então? Sua situação tem solução? Temos uma boa notícia. Há solução! O Criador não deixa o ser humano em tal condição. Falaremos mais sobre isso no decorrer da conferência bíblica. Mas é importante dizer agora que Gn 3 não tem a palavra final.

Jesus Cristo tem a palavra final. Nele há possibilidade de restauração. Restaurar é voltar para o original. Esse é o desafio de ser família em todas as épocas, também hoje. Mas como vou consertar minha família se existe essa e essa situação que não dá mais para voltar atrás? A graça que temos em Cristo Jesus, hoje, permite que voltemos para o original a partir de onde estamos. Exemplo, quem apenas vive junto = busque a benção. Lá onde não há tempo, crie tempo e faça refeição em conjunto sentado à mesa; – afastar elementos que se interporem; – em Cristo há nova humanidade = respeito mútuo. Obviamente tudo isso passa por Cristo e pela renovação de vida que somente ele pode dar. Ele deu a vida por você e por sua família. Dirija-se a ele!

Escrito por: Missionário Alison Diogo Heinz

CONFERÊNCIA BÍBLICA – O DESAFIO DE SER FAMÍLIA – 03/06/2016

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